segunda-feira, 24 de abril de 2017


(José Ames)

PENSAR SOBRE ANDAS




"Porque um pensamento sem fim prático é sem dúvida uma ocupação clandestina não muito conveniente. Esta espécie de pensamentos, sobretudo, que caminhando sobre andas, tem apenas um minúsculo ponto de contacto com a experiência, é suspeita de nascimento irregular. Sem dúvida falava-se assim outrora dos "voos do pensamento"; no tempo de Schiller, um homem cujo peito albergasse tão sublimes problemas teria sido muito considerado. Hoje, em contrapartida, ter-se-ia a impressão que este homem era um pouco anormal, a menos que fosse o caso do pensamento ser a sua profissão e a sua fonte de rendimento."
"L'Homme sans Qualités" (Robert Musil)

Por mais que os avanços da ciência dependam dos "pensamentos sobre andas", desligados, quase sempre, de qualquer utilidade prática, nunca abalaremos a desconfiança do homem mediano, "traumatizado" embora pelo sucesso tecnológico, filho natural da teoria e da abstracção.

E a razão é que o espírito prático funciona perfeitamente a um determinado nível dos problemas com que nos deparamos na vida quotidiana.

Mas essa inteligência ficará sempre aquém de qualquer descoberta.

domingo, 23 de abril de 2017

(Covilhã)

A LEITURA NÃO É DE COMPANHIA

structure of protein




"Mas no ocidente democrático-tecnológico, tanto quanto se pode dizer, os dados estão lançados. O in-fólio, a biblioteca particular, a familiaridade com os idiomas clássicos, as artes da memória pertencerão, cada vez mais, ao reduzido número dos especializados. O preço do silêncio e da solidão aumentará. (Parte da ubiquidade e do prestígio da música provém precisamente do facto de se poder escutá-la enquanto se está na companhia dos outros. A leitura séria exclui até os que nos são mais íntimos).
"Paixão intacta" (George Steiner)

É óbvio que o ideal do Homem da Renascença teve o seu tempo. Não é mais possível ao indivíduo dispensar a memória objectiva (a das enciclopédias e dos bancos de dados), nem conhecer o essencial das artes e das ciências.

Mas entre o especialista, confinado ao núcleo da sua proteína, e esse ideal, há espaço para um espírito "humano" que saiba relativizar a memória que cresce fora de si e o tipo de conhecimento que lhe está associado.

Como sempre, o problemas dos "muitos" é de outra natureza. E talvez esteja na sequência devida que a música, em tantos casos, tenha substituído a religião e o fanatismo. Podemos desfrutá-la, de facto, todos juntos.

Mas a leitura será cada vez mais para os que, como diz Pessoa, não são de companhia.

sábado, 22 de abril de 2017

(José Ames)

O ROMANCE DO ANTI-ROMÂNTICO


"O Bom Alemão" (2006-Steven Soderbergh)




"The Good German" termina numa atmosfera moral que é o oposto do final de "Casablanca", no que pretende ser, visivelmente, uma citação perversa.

Lena é conduzida por Geismer, o amigo americano, ao avião que a vai salvar de Berlim, mas não do seu passado. É nesse instante que lhe faz a revelação de ter a denúncia de vários judeus na consciência.

Não há nada de nobre na renúncia de Geismer, mas só a náusea e Lena não tem nada já de que abdicar. A célebre despedida de Bogart e Ingrid Bergman encontra aqui uma variação lúgubre e desesperada, de que o resto do filme não está à altura.

Salva-se a música herrmaniana (Thomas Newman) e a fotografia, digitalizada para preto e branco, de Peter Andrews.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Vila do Conde

O CANTO DAS SEREIAS


Le Polycratus a été traduit pour le roi Charles V
par le Franciscain Denis Foulechat.





"A música embaça o rito divino, porque perante o olhar de Deus, nos recintos sagrados do próprio santuário, os cantores, com o impudor das suas vozes lascivas e com uma afectação singular, tentam feminizar os seus apoiantes fascinados, interpretando as notas e terminando as frases com a sua voz de meninas. Se pudésseis só ouvir as exaustas emoções dos seus cantos e contracantos, sempre impróprias e pouco judiciosas, no princípio, no fim e no meio, creríeis que aquele era um conjunto de sereias, e não de homens."

"Policratus, 1159" (Jean de Salisbury, citado por William Dalglish e Anna Maria Busse-Berger em "les écritures du temps")

Assim, um sábio do século XII exprimia o sentimento que em si despertava a música ouvida na catedral de Notre-Dame. Parece que estamos a ver a ambiguidade sexual dos frades de Pasolini, na sua célebre trilogia.

A mulher, ausente desses grandes cenóbios, pela proibição do cânone, "persegue" com o seu corpo e a sua voz o espírito da comunidade. Através da estética e dos ideais da beleza, ela insinua-se nos corações.

Vemos aqui como a música servia à feminização, abortando a sublimação imposta pela doutrina.

É caso para dizer que o hábito faz o monge.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

(José Ames)

VISÃO DE ESPARGOS

"La botte d'asperges" (Eduard Manet)


"O que nisso se aprecia, é que está finamente observado, que é divertido, parisiense, e depois passa-se. Não é preciso ser um erudito para ver isso. Sei bem que são simples esboços, mas não acho que esteja suficientemente trabalhado. Swann tinha o desplante de nos querer fazer comprar "um molho de espargos". Que até ficou alguns dias. Só havia isso no quadro, um molho de espargos, como esses que o senhor está em vias de engolir. Mas eu, recusei-me a engolir os espargos do Sr. Elstir. Ele pedia por isso trezentos francos. Trezentos francos, por um molho de espargos!"

"Le Côté de Guermantes" (Marcel Proust)

A suficiência com que o duque fala da pintura impressionista baseia-se numa pretensa evidência: a de que não está "trabalhada", que ficou no estado de esboço. E nisso, apesar do lado Saint-Germain dos seus pergaminhos, exprime a sensibilidade e os estereótipos de qualquer burguês do seu tempo, que apreciava ainda a arte pelo seu "valor acrescentado" e, sobretudo, pela dificuldade da sua execução.

Mas esse modelo tinha sido completamente posto em questão pela técnica fotográfica. Nenhuma imitação da natureza, por mais minuciosa e elaborada, podia competir com o "pincel da luz".

A nova liberdade da pintura impôs-se, assim, à custa de todo o critério objectivo. Só o mercado e o gosto mais "irresponsável" pontificam agora.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Madrid 

O OVO DA SERPENTE



William Blake: "The Book of Job"




"Não creio que seja possível que a cultura europeia recupere as suas energias interiores, o respeito por si própria, enquanto a Cristandade não for responsabilizada pelo seu papel seminal na preparação da Shoah (o Holocausto); enquanto não se reconhecer como responsável pela sua hipocrisia e impotência quando a história europeia se encontrou envolta em trevas."
"Paixão Intacta" (George Steiner)

Não me parece que se possa dizer que a cultura europeia contivesse dentro de si "o ovo da serpente". Não temos qualquer ideia sobre o que pode ter contribuído para a sua fecundação e para o seu desenvolvimento. A ideia de causalidade não é uma ideia da história, mas da física.

Mas tem sentido perguntar por que a Shoah não obrigou à revisão da ideia de Deus e a um novo começo, a partir do crime dos crimes. Está por explicar tudo aquilo que continua como se nada tivesse acontecido.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

(Lisboa)

LIÇÕES E PRECONCEITOS

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"É pelo menos possível construir uma argumentação racional a favor da nacionalização de todo o capital industrial (se bem que eu creia que pode ser demonstrado - e a experiência confirma-o - que as consequências duma tal política seriam desastrosas). Mas nem sequer é possível construir uma argumentação racional para sustentar que os operários empregados num momento dado numa empresa ou numa indústria deveriam deter colectivamente os equipamentos desta indústria. Toda a tentativa para imaginar as consequências duma tal medida mostra rapidamente que ela é absolutamente incompatível com um qualquer uso racional dos recursos da sociedade, e que conduziria a uma completa desorganização do sistema económico."

"Essais" (Friedrich Hayek)

Quem conheceu a voga que no nosso país tiveram ideias como a da autogestão e a do controle operário sabe que são ideias não só plausíveis, mas que facilmente ganham os espíritos, se o contexto político for favorável, como era o caso nos anos setenta.

A experiência demonstrou, porém, que essa facilidade e esse aparente bom-senso escondiam problemas de organização e de viabilidade económica insuspeitados, pelo menos para os mais ingénuos.

O resultado é que em nenhum lado vingaram essas ideias. E aqueles que gostariam de responder com o argumento de que seria preciso mudar todo o sistema para essas experiências terem sucesso, têm na ex-URSS a prova de que nem aí elas eram economicamente racionais.

Esse passivo histórico, contudo, não bastou para acabar com ilusões como essas, e a prática dos sindicatos reflecte isso mesmo, ainda hoje.

Continua-se a pensar que a sinceridade, a honestidade, a boa-vontade e, sendo a nossa cultura o que é, o mais apreciado ainda "espírito de pobreza", designam, naturalmente, alguns para certas posições, donde se espera que ajam segundo a justiça e aquelas boas disposições.

Esquece-se, uma e outra vez, que a organização e a função modificam as pessoas e que um operário à frente duma administração já não é um operário, nem pensa como tal, mas pensa como um gestor ou um burocrata. Por esse motivo aquela espécie de moralismo automático, em função duma categoria social, só nos pode extraviar.

Apetecia dizer que quando os sindicatos, em vez dessa moral fácil, tiverem em conta e souberem explicar as consequências das suas propostas, algo de novo se veria. O problema é que a organização sindical não está em posição de ver tão longe, em primeiro lugar, porque não lhe cabe gerir.
Ora, parece que essa demonstração seria imprescindível numa verdadeira negociação.

quinta-feira, 13 de abril de 2017


(José Ames)